Tuesday, September 13, 2011
Friday, December 24, 2010
SHELTER FROM THE STORM
Wednesday, December 15, 2010
CAVALO DE CERA
Era uma vela roxa, bordeaux, quase marrom, mas roxa. Dificuldade de definir cores. Cor de vinho, digamos. Não era vela de feitiço, mas decoração à la duendes. Foi derretendo, e, qual surpresa!, ao fim do dia estava ali: um cavalo, de cera. Moldado, sei lá como, sei lá por quem, sei lá que ninguém. Estava ali, um cavalo. E, brincando com ele, lembrei-me.
Da Ordem Cavaleiresca, criada por um velhinho. O velhinho era um velhinho: brincava. Criou várias ordens, mas: a Ordem de Cavalaria foi a mais séria. Congregou muitas crianças. As meninas jamais viram pessoas tão formosas. Jamais fizeram qualquer esforço, com eles por perto; e, se mangavam deles, ai!, lá vinha um desentronchar de entranhas, por meio das palavras. Aí, elas choravam. Sentiam-se algo que pudesse ficar debaixo do pano velho da soleira da porta, sem serem percebidas. De esmerada educação, os mocinhos choraram muito, quando o velhinho partiu. Partiu de cota e elmo, e a longa espada. Cavaleiros dispersos, onde estarão?
Saturday, December 11, 2010
No Além
– Jura?! Você não assistiu nem um show do Chopin no Conservatório de Paris??!
– Juro...
– Ah!... Então você não viveu!...
PANBOX
Abri a caixa de correio, e havia apenas um papelzinho: “Há uma esperança”. Era propaganda de igreja, mas estava lá, na escuridão da caixa de ferro, empoeirando, e ainda tão limpinha, tão novinha. Nem mexi. Apenas fiquei com a frase na cabeça, e tranquei-a de novo, na escuridão da caixa de ferro. E depois, o domingo farfalhou as sibipirunas, todas secando, mas ainda verdes, verdinhas de tarde dourada - é inverno.
Com as mãos ainda enferrujadas de água e de frio, fui pela escada acima, e notei que, realmente, havia uma esperança.
À medida que as horas se dilatavam em minutos, e estes se dilatavam logo em segundinhos, fui percebendo que a esperança sempre esteve presente na caixa empoeirada de ferro, que é onde menos se espera.
E ali ela está, protegida. Mas, se eu procurá-la de novo, é bem capaz que tenha sumido para outro lugar, talvez nas calçadas do jardim de baixo, ela vai para onde a não querem.BRAHMA
Tudo aconteceu em outubro de 2003, quando o Cachorro do Vizinho invadiu a propriedade e matou doze frangos e galinhas, num massacre que ficou conhecido como O Abominável Caso do Assassinato de Brahma, referência ao galo, que veio a ser vítima do monstro, perecendo valentemente no campo onde suas esposas e filhos jaziam. Foi o primeiro a avistar o Cachorro do Vizinho, e deve ter sido o terceiro ou quinto a morrer, porque ficou no pescoço do bicho, bicando e batendo as asas. Mas o animal era raivoso (não de doença, mas de maldade insana mesmo), e deve ter matado rapidamente o galináceo que lhe teimava em espicaçar com asas e bico. Levou a bocarra ao lado, e sacudiu com os dentes o galo Brahma, até ele ser deixado sem vida no campo gramado, em meio às penas e ao sangue do seu clã. Houve sobreviventes desse massacre, e um dos sobreviventes veio a ser herdeiro direto de Brahma, com o direito de ter exatamente a mesma aparência. Foi considerado caso de reencarnação, debatido no Espiritismo com argumentos contrários e gerando discussões acaloradas. Mas o caso é que Brahminha – como os proprietários gentilmente o chamavam, para distingui-lo do antigo Brahma, mas que gerava nele um indesejado sentimento de inferioridade, mais indesejado ainda pelo perigo de voltar uma ameaça como a antiga – cresceu e deu prosseguimento ao clã da Chácara, povoando-a, num caso facilmente comprovável de reencarnação do mesmo Espírito. Pois foi nessas condições que um outro perigo ameaçou a sobrevivência do clã, e, dessa vez, Brahminha foi orar.
“Meu Deus, livrai-me da morte. Nossa Senhora e Jesus Cristo, protegei-me com as armas dos vossos santos, e dai-me poder de suportar a provação, e que tudo se encaminhe segundo os desígnios de nosso Criador.”
Assim ele rezou, junto à torneira d´água, no quintal. Olhava a pocinha d´água, formada pelo uso da torneira, e encontrava seu rosto nessa água, sem perceber que o reflexo ondulava num campo argiloso, onde despontavam uns matinhos, pequeninos, como uma miríade de estrelas verdes. Continuava ciscando e vendo a si mesmo. Terminada a oração, foi ter com os seus. E soube a verdade.
A CONTINUAÇÃO DO GATO PRETO
Tal como nos foi contada por um velho, na mesa do bar, citando um obscuro Tratado geral do bilhar, de autoria desconhecida, mas atribuído a um certo Valdecyr Cosme dos Santos, lenda do jogo.
Antes, deixe-me fazer o retrospecto da história do Gato Preto, tal como foi contada por Edgar Allan Poe. A história é a seguinte: um sujeito gostava muito de animais; era apaixonado por eles; mas, um dia, ele recolhe do bar um animal preto, um gato que ali passava, e que parecia pedir: “Me leve pra casa!”
Pois bem, esse homem recolhe o gato e o leva pra casa, para se juntar à turma de coelhos, tartarugas, cachorros, passarinhos. E tudo parece normal, por uns dois dias.
Aos poucos, o homem vai se sentindo diferente. Azedo; amargo; nojento; e tudo sem qualquer causa aparente. Começa a maltratar seus bichinhos. Faz judiação. E até maltrata a esposa, que não entende o que está acontecendo, nem entende por quê ele começou a beber.
O gato preto, porém, era seu objeto preferido de fúria. Quando a esposa faleceu, vítima do machado do marido, faleceu porque ia defender o bichinho, e foi emparedada pelo homem, com cimento, na parede do porão.
Julgando-se esperto, o sujeito leva a polícia até o porão, um dia, para demonstrar que ninguém precisa mesmo suspeitar de si. Mas a polícia, assim que está indo embora, ouve um miado vindo da parede. O homem começa a suar frio e a tremer. E a polícia, cavando a parede, descobre um gato, vivo, miando sobre a cabeça de um cadáver de mulher.
História assombrosa. Mais assombrosa ainda, porque é o próprio delinqüente quem nos conta os detalhes de sua loucura, e faz, daquele gato preto, um símbolo do mal, que inocentemente levamos conosco pra casa, mas que tem os seus efeitos desastrosos.
Bem, a história terminaria aqui; entretanto, o Tratado geral do bilhar diz o seguinte:
TRATADO GERAL DO BILHAR
Capítulo III, “A bola oito”
Diz a lenda que, depois da prisão do seu dono, e depois do triste enterro da bondade, sacrificada como um boi de sacrifício aos demônios infernais de seu marido, o Gato Preto foi recolhido à Delegacia, onde recebeu a atenção das senhoras da Associação Protetora e comoveu as pessoas por meio de inocentes manchetes nos jornais, onde estampavam a foto do bichinho por meio de palavras doces. Todos estavam mancomunados sem saberem; até o Prefeito veio demagogar sua presença ao lado das elogiadas senhoras da sociedade. E ali estava o bichinho. Preto. Poucas pessoas percebiam. Até que um dia, um homem percebeu que o seu vício no jogo de sinuca tinha a ver com a bola preta. A única preta, no vasto gramado de bolas coloridas. É que ela lembra... Negramente, o Infinito, rodando, ou estancando-se... Eu sei, tudo isso é incoerente. Sim, eu sei, são as superstições... Mas há um olho para ver o mal. E é triste de ver... É nessas horas que o gato preto se torna bom... Sim, eu sei...
O fato é que o Gato Preto continua em seu telhado calmo à lua; a bola preta rola pelo gramado livremente; e, em noites só de lua, a noite é estar dentro de uma grande bola preta, com uma certa nuvem branca.
Misterioso parágrafo, que nos foi contado exatamente, e com muita reverência, posteriormente, pelo Sr. Alcínoo Campobello, naquela noite de tempestade, que seguirei contando agora:
Íamos pela estrada, e discutíamos Goethe.
Zum sehen geboren
Zum schauen bestellt
Que o dicionário eletrônico traduziu tão lindamente para o Inglês:
To sees born
To looks ordered
Ah, é tão lindo, se colocado no contexto da contemplação! Como poderíamos traduzir para nossa língua? Talvez:
Para as vistas nascido
Para os olhares mandado
Discutíamos Goethe e outros poetas alemães, naquela noite em que meu amigo me acompanhava na obrigação de ir até uma cidade. A noite era tempestuosa, desde que saíramos de casa. Na estrada de asfalto, as nuvens se moviam pesadamente enquanto passávamos o mais rápido possível para escapar da chuva em pleno caminho, e falávamos dos poetas alemães como se tivesse surgido, o assunto, da própria noite. Não haveria nada mais adequado àquele momento, do que discutir justamente esses assuntos tempestuosos, furiosos, naturais. Combinava-se perfeitamente à atmosfera de tormenta.
Mas o fato é que a chuva nos pegou ao meio da estrada, e, sem ver um palmo à frente, tivemos de interromper o assunto e pegar o atalho que ia à cidade de X... Foi esse atalho que surgiu miraculosamente, quando a única opção seria levar o carro para a beira da estrada e desliga-lo até a visibilidade melhorar, o que teríamos de fazer, mesmo que a beira da estrada se descobrisse, depois, como um despenhadeiro. Graças a Deus, o trevo de X... surgiu e tomamos o caminho da cidadezinha, que estava encharcada, repleta de rios grossos correndo às calçadas e ao meio das ruas, mas que, ao menos, não oferecia o perigo que ainda há pouco corríamos.
Procuramos um lugar para ficar ao abrigo da chuva; um lugar onde pudéssemos andar livremente e fumar. E encontramos, depois de uma certa procura, um bar.
A porta estava aberta, escura, negra, e algumas formas denunciavam que havia pessoas ali. Ótimo, pensamos, vamos descer aqui.
Entramos no bar, levando um pouco da chuva nas costas, e esperamos a melhora.
Enquanto isso, acompanhávamos a conversa baixa de alguns homens. Fui ligar para casa, avisando que estava tudo bem, mas o telefone não funcionou, o telefone público. E tivemos de ficar, assim, à espera de que o blecaute, o apagão, se acendesse.
Muito tempo depois, subitamente, a luz acendeu. O que vimos, deixe-lhes contar, foi espantoso: estávamos num lugar como que transportados à década de 1930 ou 1940, no máximo 1950. Penduricalhos de peixes secos, que ainda pareciam vivos, piranhas do Mato Grosso, com a boquinha aberta, as serrinhas nos dentes, e outros espécimes que enfeitavam vários cantos do recinto. Hoje em dia, isso me lembra a igreja de Moby Dick: toda enfeitada de coisas de baleia. Os caçadores de nossos dias, desses dias brasileiros e antigamente bandeirantes, usam enfeitar-se com suas caçadas nos rios. Mas ainda havia outras coisas: uma estante, enorme, além do balcão, repleta de garrafas enfileiradas e antiqüíssimas, de aguardentes que meu avô devia beber, quando moço, com seus amigos, rótulos gastos e, em minha imaginação, a estante toda tinha enfeites de teia de aranha e pó, com pingentes e imagens de santinhos, santos, santões, vermelhinhos, azuis e brancos, sei lá, eu me lembro de ciscos de cor naquela exposição de antiguidades populares em tom pastel. Todo o bar, iluminado ainda por uma lâmpada da antigüidade pesqueira e lavradora, que ficava ali no teto, pendurada das vigas de madeira, todo o bar, dizia eu, era antigo, até às mesas e o chão. Seus habitantes ocasionais não eram menos trazidos do tempo: eram velhinhos que minha lembrança, hoje em dia, retrata como sendo os fundadores de nossa região. Mas havia de tudo. Todos eles envoltos em mistério.
O dono do bar era uma figura a que todos chamavam Cigano. Foi ele quem nos vendeu, do freezer de quando eu era criança e do século passado que era o balcão de madeira e vidro, uma cerveja nova e paçoquinhas, cortadas de um bloco inteiro e servidas em papel de padaria.
Explicou alguma coisa sobre o apagão, contou alguma piada, que meu amigo ouviu, enquanto eu ainda me espantava de estar na década de 1950, e nos vendeu duas fichas de sinuca, que fomos jogar nos fundos do bar, como antigamente, quando o jogo era proibido.
Lá nos fundos, as duas mesas ficavam numa varanda, que dava diretamente ao grande quintal de pomar e galinhas, e de onde podíamos ver o muro que dava para a rua, onde um poste de luz amarela acendeu. Por causa da luz do poste, víamos caírem as gotas lavradas de chuva, como de um diamante lapidado e finamente desbastado. O lugar era perfeito para jogar, para beber enquanto se jogava, e para fumar livremente enquanto se conversava, acrescentando ao fumo inalado aquele cheiro de terra molhada e desagradável. Logo, viemos ter companhia, depois de alguns lances e alguns copos de cerveja. Eram dois homens, dois velhos, nem velhos eram, eram quase velhos, ou eram velhos magrinhos e muito fortes, que entraram conversando e sentaram-se a conversar. Um deles, de bigode branco e rosto muito marrom, cabelinho branco aparecendo do chapéu, camisa arregaçada até o meio do braço, ficou olhando para nós, certa hora, em silêncio de quem vai falar, e mexia os dedos juntos das mãos, com os cotovelos apoiados ao joelho dobrado sobre a perna. Seu companheiro silenciou, sabendo que o outro ia falar, e o que ia falar. Soubemos disso, e esperamos. Até que ele falou a respeito do Tratado geral do bilhar, coisas que não vou contar aqui, para não alongar demais a história, e para não contar mais do que me é permitido. Além disso, o Tratado geral do bilhar, quase mitológico grimoire da sinuca, foi apenas a introdução de uma outra história, apenas o pretexto para se contar a terrível história do Lorde Papagaio. Terrível não sei se é, mas a curiosa, interessante, singular história do Lorde Papagaio.
Tem muito a ver com Edgar Allan Poe, autor já citado. Mas talvez tenha menos a ver com o Gato Preto, e muito mais a ver com O Corvo.
O Corvo, disse-me o velhinho, é aquela história do homem que fica viúvo e, algum tempo depois, numa noite escura de esquecimento, tenebrosa, funérea, fúnebre de nuvens e de lua, recebe a visita de um passarinho agourento, preto que nem carvão, que vem entrando pela janela que o outro abriu, achando que era só o vento que estava fazendo barulho, mas era o passarinho que estava tentando entrar. Bateu na porta, bateu na janela, e quando o homem abriu, tentando acreditar que era só o vento, o passarinho entrou e foi pousar lá no alto do quarto, em cima de uma imagem que ele tinha no quarto. Aí o passarinho ficou quieto, e o homem já sabia o que o passarinho tinha ido fazer lá, só que estava com medo e queria que o bicho fosse embora. A cada pergunta, a cada coisa que o homem perguntava, dizia o passarinho: “Nunca mais!”. Foi dizendo isso, até que o homem caiu em desespero; pra sempre o passarinho ficou lá, dizendo que nunca mais ele ia ver a amada de seu coração, e o homem ficou, assim, entregue à amargura de ser um sempre viúvo.
Coisa triste... Mas, agora, o senhor repare naquele outro passarinho ali.
E me apontou uma parede, ao canto esquerdo lá da porta da entrada do bar, onde ficava uma mesa e duas cadeiras.
Repare bem, disse-me ele, (e o outro, seu companheiro, se ajeitou na cadeira com espalhafato de quem se ajeita espantando o ar antigo para se preparar para um novo, de olhos baixos no chão), repare bem lá no alto, aquele desenhão de papagaio, está vendo?
E eu vi, um papagaio enorme, enorme não, muito grande, grande, de terninho marrom, com um cachimbinho na boca, aceso. Seus pés (!) estavam calçados com sapatinho chique, de couro, e um dos pés estava sobre uma bola de futebol. Sua pose era a de quem dominou a bola. As mãos (!) estavam nos bolsos do paletó. Seu sorriso era alegre como de um Zé Carioca posto num terninho à inglesa, com direito a coletinho branco e gravata preta, e tudo. Via-se ele de perfil, o sapatinho sobre a bola, as mãos nos bolsos do paletó, o olhar alegre, o cachimbo aceso, de pé, como um vencedor elegante.
Ora, identifiquei, na hora, quem era. Era o símbolo do Palmeiras, clube do coração de muitos aqui do Interior, principalmente dos descendentes de italianos, como devia ser o caso do Cigano. Esse símbolo, pintado como um afresco no interior dos bares, eu já tinha visto muito em minha vida. Lembrava-me o meu avô, de quando ele me levava aos bares de bocha, de pinga, de sinuca, de truco, e me comprava uma salsicha curtida em vinagre ou um pastel salgado, ou um doce colorido de geléia, e o domingo era claríssimo lá fora.
Repare melhor, disse o velho, sorrindo (o outro, seu companheiro, levantou os olhos, ficando na mesma posição, com as mãos juntas no meio dos joelhos das pernas estendidas).
Então nós vimos, conjuntamente, três furos de bala de revólver, bem no peito do papagaio.
Quem fez isso?
Sabe quem fez isso? Sabe por que se fez isso? Eu vou lhes contar
Então ele pigarreou de lado, e nos contou
A História do Lorde Papagaio
Estava um homem, certo dia, talvez um domingo de sol, antes do almoço, tomando sua pinga, sentado bem ali, sob o Lorde Papagaio, quando, depois de muito tempo sozinho, começou a se enervar. Quem estava meio longe podia ver muito bem que ele conversava e discutia com o passarinho pintado à parede. Depois de algum tempo é que foram notar que o caso era grave. Depois de muito tempo, na verdade, porque o homem era dado a ficar nervoso, quando bebia, e ficava nervoso contra os políticos, saía falando do time pelo meio da rua, falava de não sei quens; e não fazia mal a ninguém, só perdia o controle da língua. Mas, naquele dia, todos viram que o caso era sério, quando ele se levantou, e; não é mesmo Cigano?... Tô contando aqui pros menino aqui a história do Lorde Papagaio!... (é verdade, balançou seriamente a cabeça o Cigano). Então, o homem, juro por Deus, levantou, começou a berrar que “Você não sabe de nada!”, “Você é um mentiroso!”, “Já falei pra parar!”, e sacou do revórve, deu três tiro no Papagaio, e saiu correndo, destrambelhado e desesperado, pela rua. O sangue escorreu pela parede, fininho e arenoso, dos três buraquinhos na massa da parede, e fez uma pocinha de pó espalhada no chão. Nunca, ninguém soube qual foi a discussão entre os dois, mas uma tia dele, duas tias dele, três tias dele, na verdade, velhinhas, que acompanharam seus últimos dias, que não demoraram muito a vir, contaram esta história, a seguinte, tal como vamos contar agora, como se o próprio assassino estivesse contando:
“Depois que matei o Lorde Papagaio, e fez-se aquele alvoroço na cidade, fui levado à Delegacia, abriu-se inquérito, mas o delegado fez logo arquivar o caso, pois havia indícios de que o Lorde Papagaio era culpado. Além disso, eu tinha que fazer uns exames lá, pra verificar que eu estava louco, e disseram que era melhor nem fazer. Abafaram o caso, judicialmente. Mas, no dias que se seguiram, fiquei lembrando daquele maldito, com aquela carinha de inocente, dizendo pra mim: “Nunca mais!...”.
“Nunca mais o quê?, ô palhaço...”
“Nunca mais...”
Aí eu olhava pra ele, tentava disfarçar, tentei levar a conversa pra algum outro lado, depois fiz mesma coisa, e o olhar... O olhar do bicho... Só olhar já dizia: “Nunca mais!...”
Eu não estava triste! Quando cheguei no bar, estava até alegre. Foi só sentar naquela mesa, prestar atenção no Papagaio, e o olhar... meu Deus, o seu olhar!... com aquele cachimbo maldito soltando fumacinha, parecia me dizer: “Não... Você tenta se esquecer... Você acha que ninguém sabe... Você acha que pode enganar todo mundo... Mas eu sei que nunca mais você vai vê-la novamente...”
“Doutor, eu havia sido deixado pela ingrata, que foi pro Paraná havia muito tempo, mas nem me queixava disso. Eu nem sabia que ela me fazia tanta falta. Já tinha esquecido, ela já era sombra desaparecida, para mim, mas ELE!... AQUELE MALDITO PAPAGAIO!... me LEMBRAVA!... POR QUE FUI OUVIR AQUELA VOZ, MEU DEUS, POR QUÊ?!!...”
E foi assim que a história do Corvo se repetiu, num bar distante do Interior de São Paulo, insuspeitavelmente, anonimamente para o resto do mundo, que continuava girando, os carros passando nas grandes cidades, eventos naturais acontecendo em outros países, todos alheios a esse crime que chocou uma humanidade.
Depois de ouvirmos a história, os olhos do Cigano fixavam-se sobre nós, os dois homens que restaram nas mesas do bar ficaram olhando para nós, e os dois velhos que nos contaram a história ficaram esperando de nós uma resposta. Levantei-me da cadeira, caminhei até o Lorde Papagaio, e disse-lhe: “Seja lá o que aconteceu, sei que tua alma descansa com a de meus avós: as lembranças de minha infância.” Fiz o sinal da cruz, despedimo-nos dos homens do bar, e partimos pela noite já sem aquela chuva.
Incoerências acontecem. Assim é que termino a terrível história do Lorde Papagaio, dizendo, como me disse o velhinho assim que entramos no carro: “Não tenha dó, não; cada um tem as suas próprias e assombrosas histórias, e Deus há-de saber quais são as clarezas de nossos mistérios. Fausto foi um gênio criado por Goethe, um gênio ambicioso de todo conhecimento, que vendeu a alma ao diabo para consegui-lo. Não sejamos como Fausto. Que Deus, apenas, saiba os mistérios dessa nossa vida tortuosa.”
Nascidos para ver, mandados para olhar, depois de ouvirmos toda a história, saímos sem nem fazer a promessa de não falarmos mais nesse assunto.
Simplesmente, ligamos o carro, e partimos.
Já não chovia mais.
II
E o Gato Preto...? Bem,
como disse o antigo livro de ciências ancestrais, já citado anteriormente, o Gato Preto continua sua vida como se nada tivesse acontecido. Sai para namorar, come na casa dos outros, passeia à noite com verão e dama-da-noite. Ninguém lhe imputou nenhum crime. Vejo-o constantemente. Foi um herói coitadinho. Ninguém suspeita que ele veio das chamas e das sombras do Inferno.
O sol na estante
O sol, batendo em Kafka, lançava jatos imateriais de cor laranja, ao contato direto do sol da tarde, ao longo das tardes. E foi ficando branco e pálido; esmaecido. E eu não sei que fenômeno é esse, que desbota as cores. A luz sobre os objetos faz as cores explodirem. É assim. Só percebi que os livros estavam fenecendo quando vi que já estavam fenecidos. Enquanto as cores iam explodindo, eu não via nada. Quem é que via? Alguém que via? Ah, se alguém visse essa fogueira dos livros nas estantes...
A MENINA DAS ANDORINHAS
A torre da igreja é um triângulo de quatro faces, pontudo e delgado como um chapéu de aniversário, encimado por uma cruz que, à noite, é azul turquesa de néon, distinguindo-se das chamas redondas e imóveis dos postes amarelos da cidade.
Há inícios de manhãs muito suaves, nestes cantos do planeta, como esta, que veio manchando de amarelo mui suave a oeste do valezinho, até tomar a igreja, que ainda estava fresca. O quadrado da torre, cujo alto é centralizado pela torre e pelas quatro pontas de lança nos cantos, ligados por murinhos de alabastro. E dois pintores estão ali, na imaginação, pois tudo está desgastado de pintura, como se vê melhor agora.
Dentro do prédio da igreja moram as andorinhas. Elas passeiam pelo teto, onde se vêem os afrescos de cores claras, os grandes santos. E a menina aponta o dedo às andorinhas.
“Elas moram aqui. É a casa das andorinhas.”
Mozart
Mozart não é apenas um libertino: é mais do que as palavras podem dizer. O cigarro, convivendo com as rosadas florzinhas no vaso; parece ser harmônico. Mas corteja-la com mais desejo e com mais volúpia... Com a timidez da adolescência e a volúpia... Ah, seria mais do que deixar-lhe um perfume: seria deixar-lhe uma fragrância de rio quando ainda é pequeno e está entre os barranquinhos de matinhos, agro e frio...
Wednesday, December 08, 2010
O MYTHO
"Sirvo de geolhos
E vós não me credes
Porque me não vedes."
Camoens
A história do coador de café
Um dia, numa manhã como muitas outras, quando o sol, espalhando-se num branco lençol de nuvens, produzia um efeito morno e excessivamente brilhante sobre o vidro canelado que havia junto à pia da cozinha, eu encontrei o coador de café.
Nesses dias, nublados tão finamente que o sol parece filtrado por algodão, o vitrô da cozinha torna-se intoleravelmente luminoso, com as suas grossas evoluções arredondadas refletindo a luz por toda a branquidão das cortinas, que a espalham por todo o cômodo. E foi num dia assim, que eu encontrei, o coador de café.
Ele havia se transformado.
Em princípio, era um coador normal, desses de pano, que a gente compra imaculados, que vão se tornando marrons, e vão enegrecendo até mostrarem-se finalmente dispostos a serem substituídos. O ciclo de vida de um coador de café é relativamente curto.
Esse pedacinho de pano, cortado de forma circular, é preso a um círculo fino de metal de onde também brota o cabo de metal revestido de plástico. Segurando o objeto por meio desse cabo, todo ele se torna um saquinho de pano, que mede cerca de vinte centímetros e, para alguém que tivesse alguns centímetros a mais, pareceria até uma rede de caçar borboletas.
Depois de lavado, o coador descansa sobre o filtro de água preso à parede da pia. Descansa para secar, como um chapéu descansaria numa chapeleira...
Ah!... Aqui começa a nossa história...
O filtro de água tem um corpo metálico e espelhante, e parece uma ave pousada: veja, as suas asas recolhidas, e o seu bico muito longo. Parece um tucano, um beija-flor, ou um urubu, em forma de metal prateado e oleoso.
Mas, nessa manhã, tudo isso, o filtro de água e o seu chapéu de coador, transformaram-se num goliardo, e essa criatura, absolutamente incrível e imaginária, povoou a sala branca por um instante que, traduzido, poderia ser descrito assim:
História do Goliardo
Os goliardos eram clérigos vagabundos e boêmios que costumavam cantar canções e fazer poemas enquanto iam peregrinar. Essa é uma definição razoável. Eles viveram na Idade Média e fizeram história na literatura, embora o goliardo mais famoso deva ser aquele da Cruzada dos Meninos, que Marcel Schwob escreveu no século XIX. Mas isso não importa, nesse caso. O fato é que chamei de “goliardo” a essa criatura na falta de outra palavra que descrevesse o seu aspecto medieval. Eu poderia tê-lo chamado de servo, por exemplo, de vassalo, de aldeão, de yeoman ou de plowman. Qualquer uma dessas palavras, creio, teria servido para designá-lo, cabendo-lhe o nome de goliardo unicamente pela natureza de certas coisas que ele me disse e que denunciavam, se não um arremedo satírico de filosofia, verdadeira filosofia em si, ainda que incrível. Por isso, a palavra goliardo se imprimiu de imediato, e não vi razão para substituí-la e perscrutar a verdadeira natureza da criatura em busca de seu nome, já que essa tentativa é perfeitamente vã e inútil.
O coador de café havia se transformado no chapéu do goliardo: molhado e de pano escurecido de viver no tempo, caindo pelas costas, como se tivesse uma longa cabeleira a esconder, ou uma porção de ar a preservar. A desproporção entre o seu corpo e o seu chapéu dava-lhe um aspecto risível, que só a sua natureza de fanfarrão me impede de censurar em pessoa tão altamente refinada. Curioso isso: em certas pessoas a dignidade se imprime em desarranjos de vária ordem, como nos trajes, e em aspectos, digamos, higiênicos.
Não, ele não era um sábio. Tampouco era um santo. E não era um gênio, porque os gênios só foram produzidos pelo Romantismo, e, se fosse o caso de ele ter existido nessa época referida, talvez fosse considerado o que de fato é: um tolo muito querido. Mais uma personagem do que um escritor. Há pessoas que vivem como se fossem personagem. É melhor do que não sê-lo. Esse é o caso, apesar de ele não ser pessoa.
Mas, vivendo nessa nossa época, especialmente trazido da Idade Média, e julgando-se muito feliz por ter viajado no tempo, ele é freqüentemente visto na companhia de pessoas consideradas "más-companhias" pela família brasileira. Eu, por exemplo, que sou o vagabundo mais conhecido desta cidade ─ depois, é claro, do homem que virou verbo.
Ele seria tratado, hoje em dia, como uma figurinha exótica e modelo de felicidade: o feliz independente do mundo e da fortuna. Sem filhos para cuidar. Sem pai nem mãe, deixados à mercê do tempo, com um agradecimento e muitas benedictiones lançadas formosíssimas sobre a casa natal cada vez mais longe. Partiu para ser louco. Viu a luz. Não tem nada. É uma personalidade, que mal sabe que está encarnada, e não veria razão nenhuma de atentar para esse fato, a não ser que estivesse em perigo de morte, como aconteceu no caso dos dois bandidos da Mãuntanha. Enfim, ei-lo aqui a dizer que a festa de Natal de minha família possivelmente não poderá contar com minha presença, já que provavelmente estarei internado em casa de saúde para recuperação da psicose que evidentemente se revela por meio destes escritos.. Engraçadinho...
Mas, voltando ao assunto, eu encontrei o coador de café feito um chapéu medieval sobre a cabeça do pássaro de metal, que era o filtro d´água pendurado na parede em frente à pia, isso vocês se lembram, não? Ele me disse, também, que era saci, e eu concordei!, e ele me disse que muitas pessoas o viam assim, sacízico... Ora, podia ser tantas personalidades quanto o olho humano possa conceber, e o convidei para comer um peixinho no pesqueiro, e ele topou. Fomos, e eu disse que a batida de maracujá do pesqueiro era deliciosa, altamente recomendada por Aristóteles, e por Januário o Velho, o que bastou para fazê-lo beber quatro delas e titubear até a sexta, que ficou no balcão, e meu amigo jogado ao chão. Coitado... Adora se embebedar dessas coisas, e sonha que o café, passando por sua cabeça, é o bálsamo que veio do Oriente, brotado da Abissínia, onde também brotou Rimbaud, aliás, dizem que existe uma marca de café etíope chamada Rimbaud, sabia? (isso foi ele quem me disse, e eu não evitei achar uma graça nessa piada quando ele me contou; achei singular). Quando a água quente passa por minha cabeça, dizia ele, não sei que coisa acontece, mas parece que limpa um negror que se formou na minha cabeça, sabe? E depois eu me lavo na cachoeira (nesta parte eu o corrigi, dizendo que nós o levávamos à torneira, mas ele nem levou em consideração esse observatio, no que eu considerei que isso era absolutamente desnecessário, e ele podia mentir à vontade, contando com minha amigável conivência).
Mas
continuando a conversa, enquanto voltávamos do pesqueiro e os vagalumes enchiam o moor como daquela outra vez, eu disse que o disco do Neil Diamond lembrava o do Nick Drake. Ele achou estranho. O rainbow lembra o bryter layter, eu disse, e ele pensou, como é possível que exista tanta beleza no mundo? Então, meninas, meninos, vocês não acreditariam no que ele fez... Saiu do carro, de chofre, saiu voando que nem um pára-quedas do Da Vinci. Foi voando. Juro por Deus. E hoje...
Hoje em dia eu acho que as comparações devem guardar certas regras, e também acho que é perigoso sair voando, que nem fez o coador da cabeça do goliardo, levando a razão dele sabe-se lá pra onde; se fosse pra Lua, como a do Orlando, seria fácil pegar de volta. Hoje em dia o ônibus espacial faz o papel de gripho, e bastaria pagar a NASA, o que o goliardo faria sem dificuldade nenhuma, visto que me deu provas de pagar as coisas sem precisar se indispor contra a leveza de sua bolsa.
Hoje em dia, Orlando é nome de cidade dos EUA, cidade que se pode ver do espaço como uma faixa prateada, arqueando no escuro, enquanto Dallas parece a estrela d´alva, de tão grande, e de tão sozinha e brilhante. E o grifo pertence à coleção de Fernando Pessoa. O goliardo é uma figura reservada às Cruzadas, tal como se depreende dos textos de Marcel Schwob, citados logo acima. E ali está o coador de café, secando ao sol da manhã novamente; dizendo-me que a vida é nada. E esse nada é tudo.
